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Home Caio Sales

Boto – Folclore Brasileiro

por Caio Sales
abril 4, 2020
no Caio Sales
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O pai de todos os filhos que tem sua paternidade desconhecida. Atlético, sedutor e ótimo dançarino; um homem muito bonito e beberrão. Emerge às margens do rio Amazonas nas noites de luar, especialmente aquelas de muito calor, bem como em noites de festa. Galante, ele surge trajado de roupas brancas, tal qual seu chapéu, que ele nunca tira, pois esconde um segredo incomum no topo de sua cabeça: seu espiráculo (orifício respiratório que certos animais aquáticos possuem). Tal fato traz à tona a verdadeira identidade do misterioso homem, trata-se de um ser antropomórfico, o Boto-Cor-de-Rosa.

Mito proveniente da região Norte do país, contado por todo o Brasil, provoca o termo “filho de boto” no Pará, para referir-sea alguém que não conhece o pai. São inúmeros nascimentos atribuídos à ele, talvez como forma de explicar relações extraconjugais, segundo alguns pesquisadores. Também existem artigos que traçam um paralelo entre a lenda do Boto e a violência sexual, infelizmente sofrida por muitas mulheres.

As moças por ele encantadas podem ser abordadas tanto em festas, como enquanto se banham pelos rios ao anoitecer. Sua descrição de homem atraente varia entre um rapaz branco ou um rapaz negro. Com seu charme e prosa, o Boto, em sua forma humana, conquista, e relaciona-se com elas, desaparecendo no dia seguinte, quando retorna para as águas. O Boto não mata, mas se desinteressa. A paixão pela criatura fantástica toma conta dessas mulheres, deixadas com um filho dele em seu ventre. Variações também o trazem como um guardião das embarcações com mulheres gestantes, um condutor de cardumes.Além disso, há uma versão onde o animal transforma-se em uma mulher voluptuosa de belos cabelos longos, atraindo os homens para seu mergulho – versão correlata à lenda da Iara, ou Mãe d´Água.

O naturalista e explorador britânico Henry Walter Bates, autor do livro “The Naturalistonthe River Amazons”, publicado originalmente no ano de 1863, após estudar por onze anos a fauna e a flora da região amazônica, coletou diversos relatos acerca do mito, salientando, inclusive, que seria o animal do Amazonas com o maior número de histórias dotadas de misticismo. Embora não tenha sua lenda propriamente mencionada por nenhum cronista colonial, Bates cita uma maior probabilidadedo Boto ser um mito de influência dos colonos lusitanos, não dos indígenas– sabe-se que os portugueses, como tantos outros povos navegadores, detinham um vasto fabulário de criaturas aquáticas.

Já o brasileiro Couto de Magalhães, etnólogo e folclorista, em sua obra de 1876intitulada “O Selvagem”, conta que a entidade indígena Uauiará, protetor dos peixes, se transformara no folclórico animal, o Boto. Namorador entre as mulheres indígenas, tal entidade poderia surgir na figura de um homem para seduzi-las até o fundo das águas, em seu palácio submerso. O ilustre folclorista Luís da Câmara Cascudo confere a popularidade de mitos que envolvem o Boto na antiguidade, porém, lendas mais antigas não fazem menção aoBoto sedutor, este teria nascido no século 19. Portanto, seria mito de origembranca e mestiça, mas com influência nas habitações indígenas ribeirinhas.

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