Em Alagoas, as matas e as serras se curvam como um enorme campo de caça, diante de um andarilho voraz e nunca satisfeito. Nascido nos tempos míticos, o Karuarú, nome que, pelos ancestrais, detém o significado de “o comedor”, é senhor de uma fome que nunca se sacia e de uma caçada que nunca se encerra, restando somente o nada.
Oriundo da poderosa vontade do próprio deus Tupã, essa fera bípede de aproximadamente dois metros de altura*, com aparência de onça-pintada e farejo de cão de caça, fora criada para ser o castigo dos inimigos da divindade. No entanto, essa encarnação do apetite primordial não demorou para adquirir independência e vontade própria. Assim, não houve mais a distinção entre oponentes e aliados, todos passaram a ser vistos como presa por Karuarú.
A imagem de bicho carnívoro caminhando sobre duas pernas feito gente, não chega perto do tamanho da perturbação que causa a sua característica mais distinta: enquanto seu par de olhos da face observa o resultado da caçada no presente, um horrendo terceiro olho cravado na nuca enxerga o futuro, antecipando cada ação. Seja humano ou animal, não há escapatória, pois Karuarú se alimenta até de onça. Ele está sempre em busca de comida.
Nesse estado perpétuo de caça, antigas vozes narram que é impossível saber quando se cruzará com o monstro. O Karuarú é um ser único, nunca permanece no mesmo local. Sempre em movimento, surge sem aviso e abocanha a vítima sem tempo para ela gritar ou fugir. Por vezes, também se mostra de longe, apenas para instaurar o desespero e dar mais emoção à perseguição, ciente do derradeiro final, em que irá saborear aquela carne embebida de medo, tateando com suas garras em desejo.
Entre a vegetação ou pelos córregos, os rastros mundanos dos ataques permanecem inexistentes. Os eruditos sabem o que houve com aquelas almas, isso é verdade. O que não se sabe é quando ele voltará a farejar, pois assim é a fome eterna do feroz andante, feito de carne, osso e brutalidade.
Essa criatura mitológica do povo Wassu, ou Wassu-Cocal, que habita as margens do rio Camaragibe, foi registrada a partir das pesquisas de Yaguarê Yamã e Ikanê Adean, na obra Cratoãnas – mitos indígenas do Nordeste (2024).
Em conversa com a voz originária de Yaguarê Yamã, o referido autor me informou sobre o povo Wassu ser bastante antigo, resistindo à época do apagamento e mantendo uma razoável cultura mítica em relação a sua identidade. Informou-me também que muito daquilo encontrado nas tradições Tupinambá pode ser observado no povo Wassu. Portanto, o Tupã, do qual Karuarú se libertou pelos instintos viscerais, seria uma entidade criadora, que se comunica através dos Encantados.
O mestre e doutor em antropologia social Wemerson da Silva, em sua tese Profetas da terra: ritual e conhecimento entre os/as xukuru-kariri e wassu-cocal (AL), de 2025, nos mostra que a diversidade ritual é uma marca atual desse povo, na qual até mesmo as crenças católica e evangélica se evidenciam em determinados grupos. No entanto, a antropóloga Flávia Ruas Pereira, na dissertação No tempo em que tudo era cabôco: um estudo de caso sobre a construção da(s) identidade(s) étnica(s) entre os Wassu da aldeia Cocal, de 2006, nos mostra que diversos povos indígenas do Nordeste já mantinham contato entre si, mas tal circulação foi ampliada com a invasão dos portugueses, podendo gerar assimilações. Ainda sobre o tema, a autora configura a assimilação como um importante processo de resistência adaptativa.
Embora as identidades possam se transformar através dos ciclos, elas também reagem e permanecem. Sendo assim, pelo cenário alagoano o cuidado se faz presente, pois o terceiro olho do indomável Karuarú ainda vislumbra um terrível destino para a sua próxima caçada.
*Na fonte bibliográfica é dito que o monstro “possui o tamanho e a aparência de uma onça-pintada, mas anda como gente”. Levando em consideração que uma onça-pintada atinge cerca de 1,80 metros de comprimento, sendo capaz de pesar até 135 quilos, pode-se inferir que Karuarú possui um corpo robusto e uma altura próxima disso.
Caio Sales é pesquisador, ilustrador e escritor, com atuação nos meios cultural e publicitário. É pós-graduado em Marketing e Inovação pela PUC-Campinas, e em Sociologia, História e Filosofia pela PUC-RS. Atualmente, é pós-graduando em Gestão Cultural e Indústria Criativa na PUC-Rio. Tem também qualificação internacional em Marketing e Comunicação pela Academies Australasia, em Sydney, na Austrália. É membro da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) e da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). @caiosales_art