No nosso território, o fator determinante para a transformação em lobisomem é o amaldiçoado ser o sétimo filho homem de uma família. Em decorrência, às vezes, fala-se que é o oitavo filho, após o nascimento de sete irmãos, ou o sétimo filho de um casal que só tinha filhas mulheres; pode ser também fruto de incesto; ou ter herdado o fadário ao desencanto de um lobisomem. Alguns relatos dizem que quem é mordido por um lobisomem pode se tornar um.
Uma forma de anular a maldição é ser batizado pelo irmão mais velho ou pelo do meio, o quarto. Entre as maneiras de interromper o fadário, é possível feri-lo com um objeto de prata, ou jogar água benta e fazer sete rezas, durante sete noites, com sete velas acesas. Para matá-lo, é necessário usar uma bala lambuzada com vela de altar ou uma bala embebida em água benta.
Quando o relógio marca meia-noite, seja na passagem de segunda para terça-feira ou de quinta para sexta-feira, o amaldiçoado já terá saído de mansinho para cumprir sua sina, buscando um local onde um animal tenha se espojado. Ali despe as vestes, faz sete nós em toda a roupa, ou a vira do avesso, e a esconde. Então se esfrega sobre aquele chão e inicia aos uivos sua transformação em Lobisomem. Entre meia-noite e três da manhã, antes que o galo cante e o sol ascenda, a criatura deve vagar por sete encruzilhadas, sete altares e sete vilas, até regressar ao berço rústico da metamorfose. Na forma humana, é um homem franzino de calos nas mãos e semblante abatido, sobrancelhas grossas em um rosto pálido. Um mal-estar constante o acompanha, por conta das lástimas da madrugada.
Há duas formas da criatura relatadas como as mais comuns. O Lobisomem Preto, um cachorrão de pelagem escura como breu, por vezes emaranhada, alimentando-se de pequenos animais e excremento de galinha, em alguns casos é atraído também pela carne de recém-nascidos não tocados pelo batismo. A outra figura é a do Lobisomem-Porco, nascido quando o fadário se transforma em um espojadouro marcado por um cachorro e um suíno, ou no próprio chiqueiro. A criatura é grande, de focinho grosso e rabo curto. Com seu hálito de curral, peregrina aos roncos e focinhadas por onde passa. Ambas as formas são quadrúpedes, cujo dorso se ergue em estranho desnível, mais alto na retaguarda do que na dianteira.
Dentre os lobisomens canídeos também há quem os relate com orelhas tão imensas, feito as de burro ou de porco, que elas se arrastam pelo chão e se convertem em pancadas sonoras e assustadoras quando chocadas durante as disparadas em quatro patas no cumprimento de sua sina. Essa característica física me lembra o já citado Lobizón. Além disso, no Brasil parecem ser menos comuns os relatos de lobisomens bípedes.
Entre tais bestas de aspecto suíno, encontra-se também o Lobisomem Amarelo. Registrado principalmente em Recife, apresenta a pele amarelada, quase branca. Seu fedor invade as narinas como o toque nauseante de um defunto. Espalha seu assombro pelas madrugadas, ávido por sugar o sangue das moças e dos pequeninos indefesos. Seu aspecto adoecido causa repulsa, chegando a provocar nojo em quem o vê. Dizem que o seu ronco é de porco, mas a fúria é de cachorro bravo.
Não apenas cães e porcos emprestam suas características ao lobisomem brasileiro; embora menos frequentes, outros animais da fazenda também o fazem, como touros e jumentos. A criatura tornou-se o retrato do medo na vida rural do Brasil. Por isso, quanto maior a diversidade de animais que se deitaram e se esfregaram no local escolhido para a transformação, mais quimérica será a forma que emergirá dali. O Lobisomem Misturado é a manifestação dessa fusão de naturezas dissonantes. Essas abominações podem ser vistas caminhando na calada da noite, com formas antropomórficas desconexas, até mesmo com cara de cavalo ou bezerro.
Por nossas narrativas, o Lobisomem mais assusta do que é fatal; no entanto, existem duas variações que são ditas como as mais agressivas e mortíferas. O Lobisomem Morto e o Lobisomem Virado do Avesso.
O Lobisomem Morto, também chamado de Lobisomem Branco, é uma aparição rara. Trata-se de uma alma penada e violenta de um lobisomem que morreu antes de terminar sua maldição. É descrito como um cachorro horrendo e branco, de grande estatura e olhar ameaçador. Dizem que a coisa está sempre furiosa por ainda carregar sua sina, mesmo depois de morta. Enquanto outros lobisomens brasileiros, quando confrontados, muitas vezes tendem a fugir, o Lobisomem Morto ataca sem hesitação, buscando matar. Detém uma resistência ainda maior e costuma surpreender suas vítimas em ataques repentinos.
O Lobisomem Virado do Avesso, ou Lobisomem Invertido, conta com breves relatos pelo interior do Brasil, especialmente em São Paulo. O principal deles recebi de Araraquara. A fera surgiria como uma monstruosidade rasgada de dentro para fora, ou seja, sem pele. É um lobisomem invertido, com os pelos para dentro e a carne exposta, pingando sangue e gordura, muitas vezes com os ossos do crânio à mostra. Também são relatados por alguns como tendo características suínas. Muito de sua agressividade ocorre por estar sofrendo, agonizando sob tal forma repugnante. Dizem que, conforme o tempo, alguns lobisomens vão adquirindo lucidez e tentando manter controle, contendo sua forma bestial nas transformações. O Lobisomem Virado do Avesso seria a personificação da luta do homem contra sua fera interior. Uma possível explicação para essa espécie é uma corruptela, ou transformação, da tônica do mito no Brasil, onde as roupas precisam estar viradas do avesso.
Essa questão da fera interior, de um descontrole latente na humanidade, parece ser uma das principais tônicas do mito do lobisomem entre nós. Pode representar um castigo errante, mas também a marca de um estigma social, quando aqueles que destoam dos chamados padrões recebem a alcunha de estranhos e perigosos. No lobisomem, projetamos múltiplos sentidos do nosso medo, sobretudo o de encarar ou revelar o instinto violento que preferimos ocultar.
Na próxima edição, trarei para o universo do Lobisomem entrevistas com o pesquisador Andriolli Costa e o multiartista Hilton Mercadante, aprofundando um pouco mais os significados desse mito.
Caio Ambrósio Sales é pesquisador, ilustrador e escritor, com atuação nos meios cultural e publicitário. É pós-graduado em Marketing e Inovação pela PUC-Campinas e também em Sociologia, História e Filosofia pela PUC-RS. Atualmente, é pós-graduando em Gestão Cultural e Indústria Criativa na PUC-Rio. Tem também qualificação internacional em Marketing e Comunicação pela Academies Australasia, em Sydney, na Austrália. É membro da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) e da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). @caiosales_art