Bragança caminha para o saturamento do setor imobiliário no centro urbano. Até os limites da Zona Rural, incluindo as áreas de preservação permanente, os espaços para construção civil estão ficando estrangulados. As leis para concessão de licenciamentos e aprovação de projetos cada vez mais rigorosas. Ao mesmo tempo são mais atrativas para corrupção. É a velha máxima, criar dificuldades para vender facilidades. Muitos Estudo de Impacto de Vizinhança e Relatório de Impacto de Vizinhança (EIV/RIV), documentos vitais exigidos para todos empreendimentos, já foram questionados até na justiça, mas muitos acabam onde começou. É assim que funciona certas leis neste país.
O adensamento demográfico é flagrante a cada empreendimento aprovado pela prefeitura. É constatado diariamente o fluxo de veículos cada vez mais complicado. O cidadão demora mais para chegar a seu destino em qualquer parte da cidade. Os congestionamentos nas principais vias são constantes e isso vai se expandindo pelos bairros com alternativas de desvios de rota para cortar caminho.
Nas proximidades dos colégios particulares e escolas públicas a situação, mesmo que seja por uma ou duas horas, já é caótica. O sistema de controle de estacionamento, ou zona azul, se espalha pelos bairros mais próximos ao centro urbano e num futuro que está logo ali, alcançará os bairros mais afastados. Quando o destino é a Zona Norte ou Oeste a situação piora nos horários de pico.
O transporte público deixou de ser uma prática diária para a população. Com o advento do mototáxi, as facilidades para se adquirir um veículo, mesmo que seja uma bicicleta, e a rapidez para se chegar ao destino, tornaram a utilização de coletivo urbano como última opção, apesar de ser mais seguro e confortável. O transporte público é tido como deficitário e as empresas de ônibus estão operando com subsídio da prefeitura e compensação ao usurário da Tarifa Reduzida de R$1,00 e Zero aos domingos. No horário de pico a tarifa é de R$6,50. O mototáxi, dependendo da distância e empresa, o custo mínimo é de R$7,00.
Enfim, o adensamento demográfico é constante. Periodicamente são anunciando novos empreendimentos público ou particular. Cada um desses empreendimentos públicos esconde o falso entendimento que os futuros moradores serão aqueles que estão saindo do aluguel, quando na verdade podem ser novos migrantes de outras regiões do estado ou do país, apadrinhados por esse ou aquele político.
Exemplo mais recente de inchaço imobiliário urbano aconteceu na zona sul, saturando a região que ostenta o principal cartão de visita da cidade e o setor mais turístico, que é o Lago do Taboão, cujo impacto de vizinhança e agressão ambiental promovidos por empreendimentos comerciais e imobiliários, foram praticamente ignorados ou negligenciados por todos, inclusive pela Justiça. Além do mais, os governos de José de Lima entre o seu segundo e terceiro mandato, o governo Fernão Dias e mais recente o de Amauri Sodré, mantiveram escancaradamente, agentes imobiliários com livre acesso a seus gabinetes, como se ali fosse um anexo comercial. Ao deixarem a prefeitura, José de Lima se tornou empreendedor imobiliário e Amauri Sodré, corretor de imóveis. Isso era é domínio público.
Agora temos o da Vila Santa Basilissa, na rua Dr. Freitas, em plena região central, aprovado pela administração Amauri Sodré, empreendimento misto com 182 apartamentos residenciais, apart-hotel com 70 apartamentos, torre comercial com 28 salas e 32 lojas comerciais, com respectivas áreas de estacionamento que totalizam 307 vagas. Para se chegar a rua Dr. Freitas serão utilizadas as principais vias do centro, já com tráfego saturado, que terão, em tese, que suportar mais 307 veículos diariamente.
A administração pública precisa ficar mais atenta, adotar critérios mais rigorosos para aprovação de empreendimentos urbanos sob pena de condenar Bragança Paulista a ser uma cidade de beira de estrada, cidade dormitório ou uma cidade sem futuro para os próprios moradores.
Por outro lado, se olharmos para todas as cidades da região Bragantina e Circuito das Águas, exceção feita para Atibaia que cresceu bastante também, nenhuma delas teve crescimento imobiliário expressivo. Os números de Bragança e Atibaia vão além da consideração do aumento normal da população com nascimentos de bebês. Nos últimos 25 anos Bragança Paulista teve aumento populacional de 60.800 pessoas, ou seja, no ano 2000 era de 124.688 e em 2025 de 185.688, segundo o IBGE.
Qual seria a explicação para esse altocrescimento demográfico? Uma das hipóteses pode ser a “generosidade” dos governos municipais de Bragança e Atibaia, no passado, em aprovar empreendimentos a qualquer preço, mesmo que sacrificasse a segurança, a saúde e a qualidade de vida da população, atitudes que, pelos números do IBGE de crescimento de cada município citado, não ocorreu e não ocorre nas outras prefeituras, justamente porque os prefeitos optaram por manter a sobrevivência econômica baseada no turismo e na qualidade de vida cada vez mais preciosos para as cidades turísticas e serranas.
Na década de 1970 tentou-se imprimir vocação industrial para o município, mas não prosperou como se esperava. E entre o turismo que se pretendia na década de 1960 e a industrialização, prosperou o setor imobiliário, a princípio impulsionado pelas casas populares e raros loteamentos de luxo. Depois, as grandes fazendas improdutivas e áreas urbanas bem localizadas e atrativas se tornaram o filé para investidores imobiliários. Daí nem turismo, nem indústria. E assim é até os dias de hoje, apenas uma cidade imobiliária!
INFORME: O prefeito Jesus Chedid, que governou Bragança por cinco mandatos, percebeu a gravidade da expansão desordenada da cidade com aprovações sem critérios de empreendimentos imobiliários, congelou a concessão de licenças, habite-se e aprovação de projetos. Mas ao sair da Prefeitura em 1996, seus sucessores escancararam as facilidades e a coisa voltou a desandar. Ao voltar ao poder em 2004 a situação imobiliária do município já avançava, sem volta, para pior. Ficou 12 anos fora do poder e ao retornar em 2017 já não tinha muito o que fazer nesse sentido porque tudo já estava dominado.