Nos banheiros escolares, sobretudo da região Sudeste do Brasil, dizem que os azulejos frios e os espelhos turvos guardam segredos perturbadores do passado, manifestados por meio de um ritual específico: o chamado à Loira do Banheiro.
As instruções variam conforme a versão, mas aqueles que se aventuram nesse domínio afirmam que a invocação exige uma sequência precisa. A descarga deve ser acionada três vezes, de preferência na última cabine, enquanto a figura da assombração é mantida no pensamento. Há relatos que mencionam ainda três batidas na porta, três chutes na privada ou a enunciação de três palavrões diante do espelho, sendo, eventualmente, todas as etapas cumpridas em uma única conjuração. Por essa lógica, o número três parece ser um código de acesso para o que se encontra além do limiar. 
A partir daí, as entranhas invisíveis de um plano insondado se corrompem, permitindo que a Loira do Banheiro apareça subitamente, toda de branco, com cabelos dourados e a roupa marcada por manchas de sangue. Algodão obstrui suas narinas e, em ocasiões dispersas, os ouvidos ou a boca. Às vezes, manifesta-se no reflexo do espelho, levando ao arrependimento o seu incauto invocador.
Quando se fala de um mito ou de uma lenda, há a tendência de se procurar um ponto de origem definido. No entanto, nem sempre as narrativas orais apresentam um nascimento preciso capaz de explicar tudo; os elementos se acumulam e se moldam, de forma inconsciente, a diferentes tempos e lugares, embrenhando-se em nossa memória coletiva. No entanto, entre as versões mais prováveis para o início dos relatos sobre a Loira do Banheiro, uma delas se destaca com ampla difusão.
Conta-se que esse fantasma seria o espírito inquieto de Maria Augusta de Oliveira, uma jovem do século XIX, nascida em Guaratinguetá, interior de São Paulo. Filha do Visconde de Guaratinguetá, cuja autoridade pesou mais do que qualquer afeto, a jovem teria sido forçada a se casar com um homem bem mais velho, o Conselheiro Dutra Rodrigues, que exercia grande influência na cidade.
Alguns dizem que o casal partiu para a França, onde a jovem foi, pouco a pouco, consumida pela tristeza de um matrimônio que jamais escolhera. Outros registros, mais numerosos, afirmam que ela vendeu seus pertences valiosos às escondidas e fugiu sozinha para Paris aos dezoito anos. Ambas as versões convergem para o mesmo fim melancólico: a morte ainda na juventude, envolta em causas jamais, ou parcialmente, esclarecidas. Isso se deve ao fato de, no navio que trazia seu corpo de volta ao Brasil, ladrões ávidos por joias terem violado o caixão, fazendo desaparecer até mesmo o atestado de óbito.
A chegada do caixão causou um grande alvoroço na bela cidade do Vale do Paraíba. Seu corpo não foi enterrado, mas, sim, embalsamado e guardado sob uma redoma de vidro exposta na sala de visitas da mansão da família. Uma coroa feita de flores douradas e mechas do cabelo da jovem, além de velas e cortinas pretas, teriam adornado as grandes janelas do recinto. Não se sabe ao certo se esse rito mórbido foi um pedido de uma mãe desesperada e arrependida ou se o corpo ficaria ali apenas até que o túmulo do Cemitério dos Passos ficasse pronto. De qualquer forma, a história seguiu para contornos sobrenaturais, pois há quem diga que, antes de ser enterrada, a defunta teria saído da redoma e, desde então, estaria vagando pelo local.
Em 1902, a histórica mansão foi adquirida pelo Estado de São Paulo e tornou-se sede da Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves, antiga Escola Complementar. Envolto por uma atmosfera perene e funesta, quatorze anos depois parte do prédio foi comprometida por um incêndio misterioso. Após a reconstrução, estudantes passaram a relatar encontros fantasmagóricos com uma mulher de cabelos loiros, vestida de branco, com algodões ensanguentados no nariz, a vagar pelos banheiros, abrir torneiras para saciar uma sede inexplicável e manifestar o desejo de ser sepultada para descansar em paz. Um cheiro de perfume feminino impregnado no ar, ou luzes que se apagam, indicam a sua presença até os dias de hoje.
De Guaratinguetá a cada recanto paulista e, depois, do Brasil, multiplicam-se as narrativas orais. Ora a aluna vaidosa que morreu ao escorregar e bater a cabeça no espelho enquanto cabulava aula para se admirar; ora a professora que se apaixonou por um aluno e acabou morta a facadas pelo marido. Entre tantos outros causos e tragédias, pode-se dizer que cada escola, ou cada prédio antigo que um dia foi de ensino, tem a sua própria Loira do Banheiro.
Quando criança, embora sua aparição seja mais comum nos banheiros femininos, lembro-me de temer que ela surgisse no banheiro masculino da escola, com sua face horrenda refletida no espelho ao erguer os olhos depois de enxaguar o rosto ou as mãos. Anos depois, quando trabalhei na Secretaria Municipal de Comunicação, no Palácio Santo Agostinho de Bragança Paulista, um prédio histórico que, antigamente, era um seminário, recordo-me de ouvir, pelo corredor, duas mulheres da limpeza horrorizadas por terem visto a Loira do Banheiro na noite anterior.
Em uma breve divagação, se é que posso dizer assim, minha paixão pelo futebol também me leva a recordar outro fantasma feminino das lendas urbanas brasileiras, em registros menos conhecidos: a Mulher de Branco do Estádio Brinco de Ouro. Segundo relatos, em uma capela situada a poucos metros da cabeceira norte do campo do Guarani, de Campinas, uma noiva fantasma silenciosa, vestida inteiramente de branco, costuma aparecer próxima do local, como se aguardasse para entrar rumo ao altar. Conta-se que essa entidade melancólica, que surge e desaparece sem deixar rastros, seria o espírito de uma noiva abandonada na década de 1970, chegando a fazer com que funcionários pedissem demissão após se depararem com assombrações ao redor do estádio.
Mas o que lendas urbanas e histórias de fantasmas como essas podem nos dizer sobre a sociedade? Na próxima edição, trago entrevistas com Barbara Quadrini, jornalista e coordenadora adjunta da Coordenadoria de Políticas Públicas para as Mulheres de Bragança Paulista, e Oscar Nestarez, pesquisador e doutor em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa pela USP.
Caio Ambrósio Sales é pesquisador, ilustrador e escritor, com atuação nos meios cultural e publicitário. É pós-graduado em Marketing e Inovação pela PUC-Campinas e também em Sociologia, História e Filosofia pela PUC-RS. Atualmente, é pós-graduando em Gestão Cultural e Indústria Criativa na PUC-Rio. Tem também qualificação internacional em Marketing e Comunicação pela Academies Australasia, em Sydney, na Austrália. É membro da Associação Brasileira dos Escritores de Romance Policial, Suspense e Terror (ABERST) e da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). @caiosales_art