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Juarez Sérgio

* WAGNER AZEVEDO

Conheci Juarez quando éramos crianças e frequentávamos os treinos do Bragantino. Ele antes que eu, pois aos seis anos era mascote do time e entrava em campo todos os domingos ao lado de Florisvaldo, filho do então goleiro Floriano. Éramos do tempo do velho Maneco (roupeiro) e do hilariante massagista João Baiano, e das tabelas de jogos impressas nas gráficas da cidade, que todos carregavam no bolso.
O tempo passou e fui reencontrar Juarez na rádio Bragança AM, como sonoplasta e eu já como jornalista do Esportes no Ar e Rádio Jornal, um programa na sequência do outro, de segunda a sexta, em que ele fazia a mesa de som.
Rádio sempre foi a paixão dele. Tanto assim que agarrou a oportunidade de se tornar repórter de campo, a convite do tio, Copinho, então comentarista.
Já nos anos 1980 passou a trabalhar na 102 FM e se consagrou como um dos melhores repórteres, em nível nacional, tanto assim que recebeu da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) a bola de ouro nos primeiros anos da década de 1990, quando o Massa Bruta obteve suas maiores conquistas.
Passada a euforia dos gramados, Juarez incursionou por outras áreas do rádio, até ganhar o programa 102 Bom Dia, uma revista radiofônica com esporte, música, política e jornalismo. E sempre com sucesso e certamente a maior audiência da emissora.
Foi em 1981 que perdemos contato, pois mudei de Bragança e só o reencontrei no início deste ano, nas dependências da Prefeitura, muito desanimado e dizendo, com nostalgia, que estava fora do rádio. Não foi difícil imaginar que estava encostado em alguma repartição, que soube depois ser a Divisão de Imprensa, como se tivesse desistido da vida.
A sua morte na quinta-feira entristeceu familiares, fãs que certamente ele conquistou ao longo da carreira e os poucos amigos de verdade.
Juarez, e não sei os motivos, mas que diante do seu talento deveriam ser irrelevantes, se viu obrigado a deixar a paixão pelo rádio de lado. Nenhum daqueles com quem trabalhou ao longo de sua existência, até onde sei, moveram uma palha para que ele conseguisse retornar aos microfones. Andou ali e acolá como comentarista, mas não tinha mais um programa que pudesse lhe devolver a alegria de outros tempos. Enquanto isso, aprendizes de feiticeiro, amadores e desprovidos de talento tomaram o seu lugar.
Não acompanhei os últimos meses de vida de Juarez, mas tenho convicção de que a tristeza contribuiu para sua partida. Um radialista como ele, encostado como se fosse um móvel velho numa repartição pública, que nada tinha a ver com sua personalidade, foi um dos ingredientes, aliado a um outro, ainda mais condenável: ao ser anunciada sua morte, todos os AMIGOS reapareceram para lembrar suas façanhas, publicar sua biografia e lamentar a sua partida.
E cabe perguntar: o que esses AMIGOS, que aprenderam com ele como se fazia rádio, fizeram para que ele voltasse a exercer a sua profissão de radialista nos últimos anos e que sua voz voltasse a ser ouvida através daquilo que era sua maior paixão, o rádio?
Nenhuma resposta precisa ser dada. Caducou, perdeu a oportunidade, não faz mais sentido. A lamentar o oportunismo de alguns.

 

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