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Transparência ou anonimato?

A Constituição Cidadã de 1988 abriga inúmeros antagonismos. Princípios colidentes, que se agridem e que difi cilmente são conciliáveis. É o que acontece, por exemplo, com a privacidade ou intimidade e a publicidade ou transparência.
O meu “feeling” é o de que a privacidade perdeu de lavada. Sob argumento de que a segurança é mais importante do que proteger a intimidade, a transparência atingiu um paroxismo inédito. O medo do terrorismo identifi ca populações inteiras em regimes fortes. Isso só não chegou ao Brasil com intensidade idêntica, porque para isso faltam recursos. Mas a tecnologia já se encontra disponível.
E o que pensa disso a nova geração? Há os que pensam que ela não pensa. Há os que parecem concluir que ela aderiu à super-exposição. Escancara sua vida com as redes sociais que distribuem pelo mundo as fotos de suas viagens, mas também de seus passeios, de seus pratos preferidos, de tudo aquilo que fazem, sentem, gostam ou desgostam.
A imersão nas redes sociais tem sugerido algumas reflexões. Emma Hope Alwwod, editora do site da revista Dazed, uma das mais infl uentes, escreveu um desabafo sob o título “O Lado Negro das Mídias Sociais”. Estas são um “mar de ilusões” e uma armadilha que defi ne e sufoca os millennials. Hoje, você é o que você posta. A imagem social é uma construção que paralisa, traz ansiedade e frustração.
O Brasil ainda está nessa onda. Dependência total da internet. Depressão quando não se recebe um whatsApp. Neura total quando, por algum motivo, se está sem o mobile.
Já nos Estados Unidos, uma pesquisa realizada pela Box1824, agência e consultoria de tendências, fez um trabalho de campo em sete estados dos EUA com jovens de 18 a 24 anos. A notícia é de Ronaldo Lemos, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro – ITS-Rio. A constatação é a de que esta faixa tem relação diferente com as mídias sociais. A chamada “GenExit”, geração saída, é assim batizada porque procura uma saída para essa desesperante dependência.
Sua característica: o abandono dos perfi s públicos e a opção por contas privadas. Postagens efêmeras, que desaparecem após visualizadas. 
É uma geração mais realista, que sabe que a possibilidade de ascensão social, de ter emprego ou estabilidade é reduzida. E de tal insegurança vem um apreço pelo anonimato, pela construção de identidades fl uidas, sempre aberta a começar de novo, em algo novo e em qualquer momento.
Seria uma geração que consome menos álcool, trabalha mais, usa menos drogas e faz menos sexo. Tem expectativas menores, compartilha o estado de desilusão com o mundo e desconfi a da internet e das redes sociais. Essa geração ditará o nosso amanhã. Tomara que encontre o rumo e tenha sorte.

 

José Renato Nalini é desembargador, reitor da Uniregistral, escritor, palestrante e conferencista

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