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A imigração espanhola e seu vestígio em Bragança Paulista

* Didier Kornprobst No artigo desta semana, continuaremos com a questão da vinda dos imigrantes ao Brasil. Na semana passada, comentamos a respeito da imigração italiana, e tomaremos assim como base algumas semelhanças e diferenças relacionadas desta vez à imigração espanhola em nossa país. Diferente da imigração italiana, que foi massiva durante as últimas décadas do século XIX, a vinda de espanhóis para o Brasil começa a ser significativa a partir da virada do século XX. De acordo com os dados do IBGE, durante o período estudado que vai de 1904 a 1913, a imigração espanhola superou a italiana pela primeira vez. Foram quase 225 mil espanhóis que chegaram ao país durante estes dez anos em que foram trabalhadas as estatísticas. Estas pessoas eram oriundas de regiões mais pobres da Espanha, e a taxa de analfabestismo destes imigrantes era relativamente alta se compararmos às outras nacionalidades que vieram ao Brasil. Contudo, o fator que motivou muitos dos espanhóis a atravessarem o Oceano Atlântico era a forte propaganda que se fazia do Brasil, passando uma imagem positiva do nosso país, e prometendo melhores condições de vida, diferente da que viviam os humildes camponeses daquele país. Este propaganda se intensificou ainda mais com a proibição do governo italiano da vinda de seus cidadãos ao Brasil em 1902, o que gerou uma necessidade de buscar a mão de obra em países como a Espanha. A maioria deste imigrantes espanhóis tinham como destino o porto de Santos e consequentemente as lavouras de café do estado de São Paulo. Destas pessoas que vieram ao nosso estado, cerca de metade delas vinham da região da Andaluzia, no sul da Espanha. Além da Andaluzia, outras regiões igualmente contribuiram para a imigração espanhola, como é o caso das regiões da Galícia, no noroeste do país e de Castela e Leão, uma região central. Esta imigração ao Brasil perdurou de modo significativo até a Guerra Civil Espanhola, que ocorreu entre 1936 e 1939, e que forçou muitos espanhóis a deixarem o país. O fato da Espanha não ter participado da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) trouxe a este país certa prosperidade econômica, se compararmos à grande maioria dos países europeus, fato este que fez diminuir consideravelmente a imigração de espanhóis ao Brasil. Notamos assim que existem muitos pontos em comum quanto à relação da imigração italiana e espanhola. Em ambos os casos os imigrantes fugiam das condições precárias de existência em seus respectivos países em busca de melhores condições de vida no Brasil, sonho que nem sempre ocorria como esperado. Em sua maioria, o destino de ambas as nacionalidades era São Paulo, região de maior atividade econômica na época por conta da alta produção de café no início do século XX, levando estas pessoas a contribuirem substancialmente como mão de obra necessária para a geração da riqueza deste produto nacional. Assim, os espanhóis povoaram várias cidades do interior paulista, principalmente no setor oeste, onde havia uma grande expansão das fazendas de café. Focando ainda mais o assunto, o fenômeno da imigração pode também ser percebido em Bragança Paulista, onde talvez o seu maior seja o prédio de número 865 da rua Coronel João Leme, conhecida mais popularmente como Rua do Comércio. Esta construção abrigou a Sociedade Espanhola de Socorros Mútuos 2 de Mayo, que foi fundado no ano de 1900. De acordo com Maria Luri Ishizu, o recenseamento de 1903 conta com a presença de 938 espanhóis em nossa cidade, dentre os 5682 estrangeiros que aqui residiam. Este casarão era usado como local de encontro e confraternização da comunidade espanhola de Bragança. Hoje em dia, o prédio, apesar de seu estado deteriorado, ainda possui alguns vestígios que remetem a seu passado ligado aos imigrantes espanhóis de nossa cidade. Observemos a imagem na fachada do brasão espanhol, um pouco apagado e deteriorado pelo tempo, mas que ao comparar com a imagem recriada ao lado, notamos mais claramente. No brasão espanhol encontramos os quatro reinos cristãos medievais que formaram a Espanha. Estes são os seguintes reinos presentes no brasão: Castela, Leão (das quais os desenhos os representam de maneira clara). Abaixo deles, o brasão listrado representa o reino de Aragão e o brasão com as correntes no canto superior direito representa o reino de Navarra. Além disso, encontramos na fachada, abaixo do brasão, a seguinte inscrição em língua castelhana: S. Española 2 de Mayo. Esta data, 2 de maio, faz alusão ao dia em que ocorreu um levante de Madri contra as tropas francesas de Napoleão, em 1808. Este foi um violento mas importante episódio da história espanhola, também conhecido como Guerra de Independência Espanhola, e que foi retratado inclusive pelo famoso pintor espanhol Francisco Goya. Quanto ao casarão da Rua Coronel João Leme, existem outros detalhes em sua fachada que valem a pena serem vistos de perto. Concluimos que os traços de nossa história estão também gravados nas construções que nos circundam. O patrimônio arquitetônico contribui em muitos casos a reencontrar algumas de nossas raízes, para então preservar igualmente a nossa identidade. Didier Kornprobst, historiador e professor.

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