º,

Dólar: R$ 3.8397

A alma militar do político

Jair Bolsonaro, em sua pe-

roração inicial como mandatá-

rio-mor da Nação, fez questão

de exibir o manto verde-ama-

relo que expressa a estética

de sua identidade desde os

tempos em que adentrou o

território da política. Ao puxar

a bandeira brasileira do bolso

e acenar com ela para a multi-

dão, no discurso de posse no

Parlatório do Palácio do Pla-

nalto, o presidente procurou

enaltecer compromissos que

permearam sua campanha:

o verde-amarelismo abriga

coisas como o ânimo cívico,

o nacionalismo, a soberania

nacional, o combate à ideo-

logia de esquerda. O fecho

de suas mensagens aponta a

linha divisória que separa seu

eleitorado de contingentes

abarcados pelo lulopetismo

e entorno: “essa bandeira

jamais será vermelha”.

A expressão soma mais

força em função da origem

militar de Bolsonaro. Mais

que outros segmentos, os

militares encarnam de ma-

neira intensa a simbologia

nacionalista. De pronto, a

primeira fala do presidente

defi niu o Brasil, sob seu man-

do, como enclave poderoso

no sul do continente a lutar

contra o ideário da foice e o

martelo (o comunismo) e, por

tabela o socialismo, mesmo

sabendo que as cores deste

foram suavizadas em nossos

tempos com a incorporação

de elementos do liberalismo,

como a livre iniciativa, forman-

do a social-democracia, como

pode se ver na Europa.

Ocorre que a vertente es-

querdista tem se enfraquecido

nos países social-democra-

tas, casos de Alemanha, Itá-

lia, Espanha, Hungria, Polônia

e até Suécia, onde entes mais

à esquerda têm amargado

derrotas. O fato é que a crise

da democracia representativa

tem fragilizado seus vetores,

implicando arrefecimento

ideológico, declínio de par-

tidos, desânimo das bases,

fragmentação das oposições.

Em contraposição, novos po-

los de poder se multiplicam

– particularmente os núcleos

formados no âmbito da so-

ciedade organizada – sob os

fenômenos que hoje agitam

a política: a globalização, a

imigração e o nacionalismo.

A globalização rompeu as

fronteiras nacionais, instalan-

do interdependência entre as

Nações. A livre circulação de

ideias e a troca de mercado-

rias contribuem para a forma-

ção de uma homogeneidade

sócio-cultural, arrefecendo

valores próprios dos terri-

tórios e certo prejuízo para

os conceitos de soberania,

independência, autonomia.

A explosão demográfi ca, por

outro lado, e as carências

das margens sociais, a par

dos conflitos armados em

algumas regiões (as guer-

ras modernas), aceleraram

processos migratórios. Na

Europa, emerge o temor de

que as correntes de imigra-

ção não apenas contribuam

para a perda de emprego

da população nativa, como

resultem mais adiante em

impactos culturais de monta,

descaracterizando signos e

símbolos das Nações.

Nos Estados Unidos,

esses fenômenos têm sido

tratados de maneira dura

por Donald Trump, com sua

insistência para construir um

muro na fronteira com o Mé-

xico. O cabeludo presidente

desfralda a bandeira do na-

cionalismo sob o discurso de

proteger empregos e melho-

rar as condições de vida de

populações ameaçadas pelo

fl uxo migratório. Daí o posi-

cionamento do governo ame-

ricano ante a globalização, os

compromissos das Nações

com o Acordo de Paris sobre

Mudança Climática e o Pacto

Mundial sobre Migração, sob

a égide da ONU; a situação

de países como Venezuela,

Cuba e Nicarágua e a política

de defesa de direitos trans-

gêneros. Os EUA marcam

posição nessas frentes.

Nessa encruzilhada, Bol-

sonaro e Trump marcam um

encontro. O pano de fundo da

articulação mostra a integra-

ção de esforços para comba-

ter ideologias de esquerda,

fortalecer vínculos com entes

comprometidos com um ide-

ário conservador, dar impulso

ao liberalismo. No Brasil, o

foco será a privatização. Dei-

xar o Estado com o tamanho

adequado para cumprir suas

tarefas. E manter o cobertor

social do tamanho que os re-

cursos permitam. Nem lá nem

cá. Mais: sem apoio a núcleos

que batalham por direitos. (A

indicação de Bolsonaro de

que devemos combater o “po-

liticamente correto” não seria,

por exemplo, o arrefecimento

a ideologia de gêneros?).

Em suma, com o res-

guardo militar, um programa

arrojado de alavancagem da

economia, ações na área do

campo, forte combate à cor-

rupção, disposição de cortar

as fontes que alimentam a

bandidagem, desfralde dos

valores da família, sob as

bênçãos de Deus, o novo go-

verno quer “consertar” as coi-

sas erradas. P.S. Com direito

da população de acompanhar

tudo isso pela linguagem

de Libras. Com a simpática

Michelle, ao lado do marido,

abrindo seu cativante sorriso.

Voltar